quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Memórias olfativas...

Antes de mais nada, preciso dizer o quanto a memória é um bicho perigoso, mutante,feito um camaleão, se traveste e aparece quando e onde menos se espera, como se nos espreitasse o passo.
Parece mesmo um bicho sorrateiro que gosta de nos pregar sustos.
Outra coisa, a memória é bicho parcial, maquiavélico,pouco confiável, as vezes nossa lembrança é ficção, ás vezes é história contada por outros que ambientamos com fotos preto e branco e agarramos como nossas, as vezes é a versão que nos favorece ou a que nos vitimiza, enfim nada séria.
Talvez de todas as espécies de memória, a mais confiável, seja a que mais me assalta: a tal memória olfativa.
Estou indo pro trabalho pela manhã e pumba, vem um cheiro misto de lavanda,alfazema e leite de rosa e está ela ali, minha avó, suave e sorridente com seus braços gordinhos me protegendo.
Ontem mesmo em plena avenida,tocou umamusica lenta e me tirou pra dançar um amor passado, e era pura memória olfativa despertada por um vivente banhado de Fahrenheit.
Tem aquela sensação de primavera vivida em outro tempo que as frésias sempre me dão.
Tem um cheiro que é Paris, senti nas ruas de lá quando viajava sozinha e estava com os sentidos bem atentos, quando esbarro por aqui, volto voando pra Saint Germain esquina Saint Michel.
Um certo jasmim, que me traz a adolescência de volta.
O cheiro do vento norte, que me leva flutuando pra uma certa esquina de um outro lugar.
O cheirinho de nenê, que me coloca nos braços minha filha pra ser amamentada.
Os cheiros vão assim me recontando, catando as memórias brevemente adormecidas que despertam pelo olfato.
Provavelmente quando eu ficar bem velhinha e começar a confundir minha vida com todos os filmes que terei visto, só os cheiros permanecerão fiéis e inalterados, guardados em frascos em algum cantinho da alma.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Um presente lindo..

Acabo de receber da minha querida Bárbara esse texto Liiindo da Valéria Surreaux ( escritora talentosíssima lá de Uruguaiana) tenho que compartilhar essa verdade que ela me faz lembrar e que me tocou tanto:
 
"Tempo perdido
 
Existe um lugar na alma onde repousam os sentimentos não vividos. Adormecem ali emaranhados todos os beijos não dados, todos os gemidos, todos os sussurros roucos, as línguas aflitas, os olhos derramados, os abraços inteiros, as bocas coladas, ali dormem as promessas, as mãos dadas, os colos, moram todos os arfares, todos os soluços, ali estão as noites mornas e as pernas entrelaçadas e os bocejos, as mãos que deslizam, os pelos, os sorrisos, as risadas, os travesseiros. Ali moram amanheceres, meninices, telefonemas, café na cama, ali moram calçadas vazias, passeios. Mora um sol de maio, um mergulho no mar, as lágrimas, o amparo, mora a segurança, o ombro, o ouvido. Ali naquele canto da alma tão ermo, moram todos os suores, todos os desejos, todas as cores, sabores, salivas. Ali tem som de cachoeira, de mar, tem balanço de rede, tem rio e bares fechando. Tem cansaço e vigor, tem amor. Dormem arrepios, taquicardias, moram brilhos, cintilâncias, mora um ciuminho tão bom de pertencimento, mora a ternura do toque e o cheiro da comida feita, o vinho, o violão, as palavras, os eu te amo, todos os para sempre ali repousam. Todas as safadezas, as preguiças, a intimidade, a saudade boa, mora o ficar a toa, os bem quereres, ali mora o silêncio que acalanta tudo, tudo que não foi vivido, psh, não acordem nada, tudo dorme como criança, tudo é no meio da noite, tudo é mudez. Despertar qualquer sentimento não vivido dói, não volta o que pra lá foi, não volta o que alma trancou. Não se vela o tempo perdido que nesse tempo mais tempo se esvai.  O que não foi vivido, sentido, vira sulcos no rosto, vira manchas nas mãos. É turvo o olho de quem quer de volta o brilho. A vida virou lembrança. Amores, calores, fervores, azares, arrebatamentos, desencontros, tudo cheira a naftalina, a pó. Tudo dá dó, fere, rasga, porque não há. Agora é ermo, silêncio e breu. Ainda tanto nos resta, mas não os sonhos que não tivemos audácia de viver, e agora é tarde, mas a memória não emudece e sobrevive em nós, emaranhado, o alargado e inútil tempo ido. Inteiro, intacto.
O tempo perdido é um retrato." (VS)
 

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

nos relacionamentos anteriores aprendi..

não é que as pessoas
não nos amem
elas só não amam
como gostaríamos
de ser amadas

leveza
tesão
dedicação
poesia
silêncio
preocupação
ciúme
zelo
liberdade
sonho
verdade

o amor
tem formatos
variados


aprendi que o amor
não é seguro
ou é
como um porto
em alto mar...

aprendi também
que amor acaba
quase sem aviso,
vai perdendo o viço, a cor
e séca,
sem chance de renascimento
um olhar, uma palavra, um silêncio, uma raiva
e lá se foi o amor...
silenciosamente...

que amor
requer bom humor,cuidados,
atenção, paciência
e algumas doses de infância

que amor
tem pesos e medidas
o fato de ser feito de dois
torna as matemáticas
e as químicas
muitíssimo variávies

que amor
nos embeleza
pondo mais cor
e alegria no olhar

que o fim de um amor
pode escurer tudo

então...

é preciso fazer luto
não beijar novas bocas
nem tentar consolo
em outro peito
é preciso
ajustar as contas
com as frustrações e os sonhos
arrumar a casa
dentro e fora
ler, caminhar, ouvir musica
ver a natureza completar ciclos
e
esperar
até
que
de algum jeito imprevisto
o amor venha novamente nos encantar

nos relacionamentos anteriores aprendi
que o amor nos pertence
pode recuar, se esconder, fazer casulo
mas é nosso
sempre volta
refaz nossas asas
e nos leva pra passear...

ps- confundo paixão com amor, há anos, será que preciso aprender a diferença?

domingo, 13 de novembro de 2011

dos movimentos...

"A vida é muito bonita,
basta um beijo
e a delicada engrenagem movimenta-se,
uma necessidade cósmica nos protege.”

Adélia Prado

....

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

ao aniversariante...que hoje faria 109 anos!

Grande Carlos Drummond de Andrade...grata!

sábado, 29 de outubro de 2011

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Do it...



Mais que uma grande poesia - Do it do Lenine... é a grande dica pra viver direito...

"Tá cansada, senta
Se acredita, tenta
Se tá frio, esquenta
Se tá fora, entra
Se pediu, agüenta
Se pediu, agüenta...

Se sujou, cai fora
Se dá pé, namora
Tá doendo, chora
Tá caindo, escora
Não tá bom, melhora
Não tá bom, melhora...

Se aperta, grite
Se tá chato, agite
Se não tem, credite
Se foi falta, apite
Se não é, imite...

Se é do mato, amanse
Trabalhou, descanse
Se tem festa, dance
Se tá longe, alcance
Use sua chance
Use sua chance...

Hê Hô, Hum! Nanananã!
Hê Hô, Hum! Nanananã!
Hê Hô, Hum! Nanananã!
Hê Hô!, Hum!...

Se tá puto, quebre
Ta feliz, requebre
Se venceu, celebre
Se tá velho, alquebre
Corra atrás da lebre
Corra atrás da lebre...

Se perdeu, procure
Se é seu, segure
Se tá mal, se cure
Se é verdade, jure
Quer saber, apure
Quer saber, apure...

Se sobrou, congele
Se não vai, cancele
Se é inocente, apele
Escravo, se rebele
Nunca se atropele...

Se escreveu, remeta
Engrossou, se meta
E quer dever, prometa
Prá moldar, derreta
Não se submeta
Não se submeta..."

domingo, 16 de outubro de 2011

para continuar sonhando... Eduardo Galleano



Ontem cheguei a concentração anterior a caminhada contra a corrupção, com o olhar meio nublado, me pareceu inicialmente tão poucos dispostos a gritar e TANTO a ser DITO...Fui ficando por ali e logo a concentração foi tomando forma e volume, fui me alegrando com os cartazes escritos á mão, com a indignação tão nítida e por razões que também eram minhas,rapidamente já éramos um grande NÓS, como motivações variadas e variadas bandeiras, mas acreditando no GRITO e na necessidade de MANIFESTAÇÃO!

Motivada resolvi fotografar tudo que o meu olho já aceso via. A frase de um menino escrita com mãos trêmulas me comoveu: "Conformidade mata a alma"...e assim se seguiram pessoas mais velhas vestindo preto falando de LUTO e CORAGEM, e os mais velhos sabem bem o que um luto representa, jovens com nariz de palhaço, caras pintadas, bandeiras enroladas pelo corpo,uma simbólica trazendo ordem e progresso, com letras invertidas e virado de cabeça pra baixo e muito mais.

Cheguei perto de um desconhecido para fotografar a frase que ele trazia no peito: Eu defendo a liberdade, e ele me perguntou: Por que tu está aqui?
E eu desatei a falar do quanto estava triste, por tudo que sonhei e desacreditei politicamente, pelas bandeiras que um dia descrente queimei, pelas tantas e tantas passeatas que participei, e o quanto estava vazia..vazio gerado pela impotência, e falei tanto, que agora já me pergunto se houve uma pergunta externa, ou foi a minha alma que andava escura e muda, que em meio aquilo tudo quis voar...

De qualquer forma foi lindo me ouvir e estar ali de novo...
Abrir a janela pra minha necessidade de acreditar, de carregar de novo bandeira e utopia, de ter causa, de ter por quê e principalmente a minha necessidade de acreditar em mudanças, e tudo fica muito mais iluminado assim...adorei novamente sentir o quanto preciso disso e vibrar com o povo na rua, de novo...

" conformidade mata a alma"



Hoje eu vesti preto e sai por aí... Não só pela corrupção,mas por uma reforma tributária, por uma educação que mereça esse nome e tenha esse crédito e esse respeito, por uma saúde pra todos, pelo direito a segurança, pelo fim dos salários milionários e todas as demais regalias de deputados e senadores...É lamentável um país funcionar a base de propina... como é lamentável que a carga tributária absurda que de paga, não seja distribuída efetivamente e revertida ao que deve saúde educação e segurança... Vou vestir luto pela impotência e por tudo que imagino precisa Urgentemente mudar, pra que nos reste DIGNIDADE E ESPERANÇA!!!



segunda-feira, 26 de setembro de 2011

só faz sentido o que nos toca os sentidos...

uma vez vendo umas pintura do Ubiratan Fernandez me veio um poema, que eu até digo que foi psicografado por que veio inteirinho e nunca mais mexi, era assim:

"é preciso que se torne ato
que abrir as pernas
seja gozo ou parto
latejar verter
sentir descompassado
... estar sangrando de verdade
imerso em tinta vida palavra arte
é preciso viver este momento
pra que da contração e da dor
se faça nascimento
erguer os braços
comer o céu e se fazer azul
manso forte lento e sempre
como um rio as correntezas as margens
é preciso agora fazer enchente
não se limitar
no medo no pouco no quem sabe
ir com sede ao pote
fazer da busca o encontro
do encontro o dia
do dia a eternidade
ir além do muro
além da luz no fim do túnel
mas é preciso ir, ir de verdade!"


viver e olhar deve ser assim, aberto ao vôo, tão lindo quando uma obra nos inspira, decididamente só faz sentido, o que nos toca os sentidos...

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Publica - Corpo fechado

"Eu tenho a sorte dos homens sinceros, das cartas na mesa, dos livros abertos, do corpo fechado... tenho a beleza das ruas estreitas, das cores ausentes, das tardes cinzentas, dos filmes antigos..."

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

terça-feira, 13 de setembro de 2011

de novo e sempre, Beatriz!

O Maestro Antonio Carlos Jobin ao piano e João Daltro ao violino
numa rara e bela interpretação de Beatriz de Edu Lobo e Chico
Buarque para a obra Grande Circo Místico.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

meu amor também parece...







MEU AMOR PARECE
( Letra - Sérvulo Augusto / Música - Eduardo Santana )


MEU AMOR PARECE MORTO
SÓ PORQUE DESMAIADO
MEU AMOR PARECE EXTINTO
SENDO UM VULCÃO HIBERNADO

MEU AMOR PARECE POUCO
POR ESTAR TÃO CONCENTRADO
MEU AMOR PARECE MUDO
POR ANDAR MEIO CALADO


MEU AMOR PARECE FALSO
DE TANTO SER COPIADO
MEU AMOR PARECE GREVE
NÃO PASSA DE UM FERIADO

MEU AMOR PARECE RASO
QUANTAS NAUS TEM AFUNDADO
MEU AMOR PARECE BRUTO
E SÓ QUER SER LAPIDADO


O MEU AMOR
É PRÁ VOCÊ
QUE NÃO DESFRUTA, MAS ACEITA
E AINDA FINGE QUE NÃO VÊ...

APAIXONADO, DESARMADO, APRISIONADO COMO O QUÊ...
FINJO QUE NEM DOEU
QUE TUDO BEM, VALEU...
EU FINJO ATÉ QUE NÃO SOU EU !


MEU AMOR PARECE ESCURO
PORQUE O TEMPO ANDA NUBLADO
MEU AMOR PARECE CRIME
SÓ QUE NUNCA FOI PROVADO

MEU AMOR ERA UM AVISO
SÓ QUE EU DESAVISADO
APOSTEI NO SEU SORRISO
E NÃO VI QUE ERA ENSAIADO

O MEU AMOR É PRA VOCÊ
QUE NÃO DESFRUTA,MAS ACEITA
E AINDA FINGE QUE NÃO VÊ
APAIXONADO, DESARMADO
APRISIONADO COMO O QUÊ
FINJO QUE NÃO DOEU
QUE TUDO BEM, VALEU
EU FINJO ATÉ QUE NÃO SOU EU...


ah, essa me toca profundamente...minha serenata pra vocês, poesia linda do Sérvulo na voz do Eduardo Santana

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Buenos Aires: Las Calles de Borges - Ian Ruschel

Buenos Aires: Las Calles de Borges (Borge's Streets) from Ian Ruschel on Vimeo.


LINDO: emocionante, doce e poético, adoro ver gente boa produzindo de coração assim e ver gente de verdade, dia a dia, rugas, mãos e rostos torneados pelo tempo,vida... esse tanto de beleza simples e diária, que se não estivermos atentos, nos passam despercebidas...

Dirigido, fotografado e finalizado por Ian Ruschel, Assistência de Max Laux e Direção de Produção do Arnoni Lenz Hostyn. Produzido pela Zeppelin Filmes
Gente da melhor qualidade, que me garantiram uma dose bem linda de poesia com esse filme...
AMEI!! Parabens pra toda a equipe!!!

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Palavra (En)cantada...



Os Três Mal-Amados
João Cabral de Melo Neto

Joaquim:

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.


As falas do personagem Joaquim foram extraídas da poesia "Os Três Mal-Amados", constante do livro "João Cabral de Melo Neto - Obras Completas", Editora Nova Aguilar S.A. - Rio de Janeiro, 1994, pág.59.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

"a arte inventa a vida "



A vida bate de Ferreira Gullar

Não se trata do poema e sim do homem
e sua vida
- a mentida, a ferida, a consentida
vida já ganha e já perdida e ganha
outra vez.
Não se trata do poema e sim da fome
de vida,
o sôfrego pulsar entre constelações
e embrulhos, entre engulhos.
Alguns viajam, vão
a Nova York, a Santiago
do Chile.
Outros ficam
mesmo na Rua da Alfândega, detrás
de balcões e de guichês.
Todos te buscam, facho
de vida, escuro e claro,
que é mais que a água na grama
que o banho no mar, que o beijo
na boca, mais
que a paixão na cama.
Todos te buscam e só alguns te acham.
Alguns
te acham e te perdem.
Outros te acham e não te reconhecem
e há os que se perdem por te achar,
ó desatino
ó verdade, ó fome
de vida!
O amor é difícil
mas pode luzir em qualquer ponto da cidade.
E estamos na cidade
sob as nuvens e entre as águas azuis.
A cidade.
Vista do alto
ela é fabril e imaginária, se entrega inteira
como se estivesse pronta.
Vista do alto,
com seus bairros e ruas e avenidas, a cidade
é o refúgio do homem, pertence a todos e a ninguém.
Mas vista
de perto,
revela o seu túrbido presente, sua
carnadura de pânico: as
pessoas que vão e vêm
que entram e saem, que passam
sem rir, sem falar, entre apitos e gases.
Ah, o escuro
sangue urbano
movido a juros.
São pessoas que passam sem falar
e estão cheias de vozes
e ruínas .
És Antônio?
És Francisco? És Mariana?
Onde escondeste o verde
clarão dos dias?
Onde
escondeste a vida
que em teu olhar se apaga mal se acende?
E passamos
carregados de flores sufocadas.
Mas, dentro, no coração,
eu sei,
a vida bate.
Subterraneamente,
a vida bate.
Em Caracas, no Harlem, em Nova Delhi,
sob as penas da lei,
em teu pulso,
a vida bate.
E é essa clandestina esperança
misturada ao sal do mar
que me sustenta
esta tarde
debruçado à janela de meu quarto em Ipanema
na América Latina."

"eu não quero ter razão, eu quero é ser feliz" Ferreira Gullar ...

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Cinema Paradiso...poesia suave!



Por que esse filme é lindo e sempre vale recordar!!

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

a arte da Cla...poesia doce!

estes são só os esboços da doce arte da Clarissa Motta Nunes ...e eu já AMEI!!!

Parabéns, meu velho!!!

Hoje meu pai, se já não fosse eterno, estaria de aniversário! Saudade é luz !

Meu velho, boa gente, brincalhão, carinhoso e cheiroso é minha referencia de vida, como cantava o Peninha: "ter saudade até que é bom, é melhor do que caminhar vazio"...e sou grata pelo tempo que pude aproveitar a convivência e o amor dele!

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Por que amor me faz bem!!!



Enluarei faz três dias
por que ser tatu-bola
faz doer as costas
eu desenrosquei
deixei a agua pingar
bem no meu centro
se pingo
"infantiliza formiga"*
havia de me servir
e de dentro,
uma semente
quase árvore,
já nasceu acesa
mesmo sem ter fundamento
sem raiz
deu de brotar
só por vontade
de repente galho e folha
abana
só balanço e passarinho

vai ver se enreda no vento
nasceu pra ser voador
isso que parecia nó de peito
estava era inviesado e sem jeito
coisa que carece ter asa
não combina com guardado
coisa que suspira cor
não combina com escuro

assim
virei árvore que voa

desisti de ser muro
coisa nem tão forte assim...

*infantilizar formiga é uma sacada poética, entre tantas maravilhas do Manoel de Barros, a quem eu dedico esse poema...ele, assim como o amor, me faz bem...

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

De repente...

Sai do filme levinha, pronta pra um amor bonito, a lua rindo pra mim, me fez cantar diferente a música do Arnaldo Antunes: meu coração, bate por saber, que meu peito é uma porta, que alguém vai atender... Tinha estrelas alem da lua sorridente, amanha fará sol e eu sei...

Não foi o filme: Estranhos normais ( mas assisti-lo vale! Éuma viagem doida e boa)
O que aconteceu, de repente: foi uma sensação-certeza que que nasceu no escuro e me iluminou!

Isso de magia e certas poções, vem mesmo é das misturas internas, com o tempo, basta quere e deixar que se iluminem!

sexta-feira, 29 de julho de 2011

enroscadinho...



Tomar vinho, dar carinho
Conversar enroscadinhos
Pra milhões e milhões de inhos
O inverno nos espera
Posso aninhar no teu corpo
Pra aguardar a primavera?

É mais ou menos essa sensação de espera que o inverno me traz, de querer me entocar, de aguardar outros tempos, de me estocar.
E pra isso nada melhor do que intimidade, meias de lã, vinho, chá ou chimarrão compartilhados, caldos quentes e outras tantas coisas gulosas e calóricas que parecem afastar o frio.
Emocionalmente é uma pena que a primavera venha depois...Seria mais fácil, as estações estarem noutra ordem: existir o verão todo pra fora, onde mesmo sem querer as pessoas ficam expostas e iluminadas, seguidos de uma primavera óbvia, onde os expostos se apaixonassem e florescessem, seguidos de um inverno rigoroso onde a intimidade fosse necessária e conquistada, pra depois vi-ver o que o outono reservasse.
Mas não, as estações não nos ajudam nisso!
Em tempo frios e úmidos como estamos vivendo, nunca vi tanta gente solitária, tanta gente desencontrada, tanta gente on line nas madrugadas e nos finais de semana...
O inverno é estação anti-social e ao mesmo tempo estação carente, difícil contabilizar essa “matemática emocional”, principalmente sendo os pares tão ímpares, ás vezes.
O frio deixa a preguiça ainda mais manhosa, a cama ainda mais gostosa, haja coragem pra ganhar a rua, cadê a vontade de encontrar?
Por isso as palavras de um conhecido dia desses, me soaram tão verdadeiras: ”estou sentindo falta de ter alguém pra sentir falta”, isso é inverno puro, de alma, é um vento minuano cortante por dentro.
Não ter alguém pra querer e dividir o frio, é um inverno rigoroso. E é uma sensação fria e infelizmente bem comum pelo que tenho visto por aí.
Durante os próximos dias, vamos ter que forjar uma primavera, antes da próxima geada.
Vamos ter que iluminar bem os olhos e acender um verão no próximo fim de semana.
Simples assim, acender uma lua cheia, que essa sempre ajuda, e encontrarmos um amor pra fazer ninho e bem aquecidos espiarmos o inverno pela janela.
Mas se só à vontade de encontrar não for suficiente, talvez o outono/inverno tenha secado e feito mais estragos por dentro do que gostaríamos e seja mesmo o tempo de hibernar, pra primavera nos receber férteis e propensos.

amor tem que dar espaços
luzes nas janelas
cantos pra se esconder
ter cheiros familiares
de café recém feito
pela manhã e à tarde
cheiro de vó aconchego
tem que abraçar
dar sossego
sofás gordos almofadas
músicas gostosas livros
lembranças nas parede
amor tem que ter vida
nos tornar mais gente
e nos receber
sempre sorrindo
na porta da frente

Nesse inverno, que está sendo uma prova de fogo e resistência, desejo pra todos nós, um amor assim, aconchegante que nos ajude a deixar o frio e qualquer possibilidade de solidão, lá longe...

quarta-feira, 20 de julho de 2011

voltar pra casa...

aos meus amigos minha gratidão!!!



"Meus amigos são todos assim: metade loucura, outra metade santidade. Escolho-os não pela pele, mas pela pupila, que tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante. Escolho meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta. Não quero só o ombro ou o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos, nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice. Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto, e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou, pois vendo-os loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a normalidade é uma ilusão imbecil e estéril".
Fernando Pessoa

terça-feira, 19 de julho de 2011

a experiência de amar...

..."o melhor jeito de conquistar uma pessoa é cultivar uma mente sem bagunça, pronta pra recebê-la em casa. Um filme que dá gosto encenar. É já viver em um mundo no qual ela vai querer nascer. Fazer da sua vida inteira uma boa cama pra ela se deitar. Porque não é exatamente você que ela vai amar."
..."Nós amamos o mundo do outro. Mais ainda, amamos a experiência de ser alguém nesse mundo."
Gustavo Gitti - quarta pessoa/vida simples

segunda-feira, 18 de julho de 2011

deveriamos assistir esse vídeo todas as manhãs...

video
E assim poderíamos rever as importâncias e dificuldades que usamos para nos justificar...

domingo, 17 de julho de 2011

Arthur de Faria e Omar Giammarco...poesia pura!



"os filhos chegam ao mundo
desassombrados, mudos, sem ar
vem de Deus, pra pais pasmos
sem teste, sem ensaiar
se os filhos chegam todos
com mil perguntas
com mil porquès
os pais respondem tontos
certezas falsas, sins sem saber
no sem saber, vai se saber
qual é a data em que se vira pai de um filho
e o filho ao fim , apreende o pai
em cada vão
não vê
os filhos chegam ao mundo
com o assombro inaugural
pais que já estavam antes
não vêem ao mundo igual
os filhos vão pelas noites
acendendo luzes
para dormir
os pais vão as cegas
sempre pensando no porvir
farol de luz
escuridão
pais que foram filhos
sofrem sentindo saudades de seu pai
que já não está
por que voltou a Deus..."

segunda-feira, 13 de junho de 2011

um ´texto pra lembrar, como um AMOR deve ser...

Leiam esse texto lindo...sobre um amor que resiste ao tempo e ao vento..
Eliane Brum - Histórias que não são compradas no shopping...

terça-feira, 7 de junho de 2011

SOCORRO - Alice Ruiz por Arnaldo Antunes



Socorro, não estou sentindo nada
Nem medo, nem calor, nem fogo
Não vai dar mais pra chorar
Nem pra rir
Socorro, alguma alma, mesmo que penada
Me empreste suas penas
Já não sinto amor, nem dor
Já não sinto nada
Socorro, alguém me dê um coração
Que esse já não bate nem apanha
Por favor, uma emoção pequena
Qualquer coisa
Qualquer coisa que se sinta
Tem tantos sentimentos, deve ter algum que sirva
Socorro, alguma rua que me dê sentido
Em qualquer cruzamento
Acostamento
Encruzilhada
Socorro, eu já não sinto nada
Socorro, não estou sentindo nada
Nem medo, nem calor, nem fogo
Nem vontade de chorar
Nem de rir
Socorro, alguma alma, mesmo que penada
Me empreste suas penas
Já não sinto amor, nem dor
Já não sinto nada
Socorro, alguém me dê um coração
Que esse já não bate nem apanha
Por favor, uma emoção pequena
Qualquer coisa
Qualquer coisa que se sinta
Tem tantos sentimentos, deve ter algum que sirva
Qualquer coisa que se sinta,
Tem tantos sentimentos, deve ter algum que sirva

segunda-feira, 6 de junho de 2011

delicadeza de Clarissa



Amei! Uma frase minha inspirou a artista plástica Clarissa Motta Nunes, que tem seu atelier de delicias visuais "Coisas de Maria" na Rua Dinarte Ribeiro nº 155 em Porto Alegre.. eu me senti honradíssima de estar entre tantas delicadezas.

uma dose de vitamina E...



Me enche de vitaminha E essa idéia linda do Galeano que este mundo está grávido de um mundo melhor, diferente e que espera, pulsa e logo virá...

quarta-feira, 1 de junho de 2011

formas...e gostos...

A Anita me fez lembrar;
o amor pode ser mudo...
surdo também pode ser...
mas pode ser
próximo e íntimo
ao fazer carinho & acalanto
com alimento...
trará lembranças olfativas e gustativas...

e pode assim ser
silencioso,
lento
e
recheado de gostos...

sem qualquer
palavra
ou
gesto,
ainda assim
amor...

sexta-feira, 20 de maio de 2011

terça-feira, 17 de maio de 2011

inspiração...

Tinha esquecido
como gostava
de algumas poesias
e o tanto que alguns
sempre me tocaram
tinha perdido
endereços
contatos
formatos
e versos

na real,
há sei lá quando tempo
perdi a rima
e a mim mesmo

mas ontem encontrei
um amigo poeta de antes
que me contou novidades
entre um jack e outro
falou brilhoso de planos
de gente que continua
sentindo
produzindo
escrevendo em guardanapos
noites á dentro

essa energia que percebi pulsando
me deu insônia
vontade de ler delicadezas
e vivê-las

talvez fosse a lua cheia
alguma tristeza
ou meu cortado

mas dormi pouco
sonhei tão variado
e acordei assim
com vontade e rima acesa...
quem sabe até um dia
volte a fazer poesia...

certos encontros inspiram...

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Poesia / empatia

Ele autografa
Uma gota de
Mais infinito
E ela sente falta
Das proprias palavras e rimas
Ele lhe confidencia:
É preciso estar vulnerável
Triste, apaixonado e atento

E ela subitamente

Entende e engole
Seu silencio...

sábado, 7 de maio de 2011

nada mais pleno...



Depois de gerar e aguardar ansiosa o nascimento, nada mais pleno que amamentar...

Quando eu estava grávida precisei ler muito para sossegar a sensação de que não saberia ser mãe, li de tudo e foi maravilhoso, por que quando a Alice nasceu, eu já me achava capaz, sei que nunca se está totalmente capacitado por que o processo na vida é aprendizado diário, mas sentir-se apto faz vencer o medo e por aí se anda. Movimento!

O mais libertador foi um livro sobre inteligência emocional que me ensinou a não negar emoção, minha filha precisava me reconhecer humana para se identificar comigo, e sendo assim eu poderia e deveria expressar tudo.Cedo aprendi que tentar... saber tudo ou controlar tudo, numa linha super-herói, só nos afastaria, então desde sempre minha filha sabe quando algo me dói, me toca, me emociona, me irrita, o que é muito bom. Clareza!

Ser mãe as vezes é dificil, mas não vivi nada mais compensador!

terça-feira, 3 de maio de 2011

Galeano é poesia pura...



Para continuar caminhando e incendiando...

domingo, 24 de abril de 2011

lembrando um dia branco...


“Se você vier
Pro que der e vier
Comigo...
Eu lhe prometo o sol
Se hoje o sol sair
Ou a chuva...
Se a chuva cair
Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça
Na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar...
Nesse dia branco
Se branco ele for
Esse tanto
Esse canto de amor

Se você quiser e vier
Pro que der e vier
Comigo..”

Trilha perfeita pra um ritual de amor, musica preferida do meus amigos, 13 anos juntos, 3 filhos lindos, que resolveram confirmar em plena lua cheia, que pretendem continuar amando-se e respeitando-se por todos os dias de suas vidas...

Foi ali, vendo o pai entrar acompanhado das duas filhas e a mãe do filho, que pensei: Todos os casamentos deveriam ser assim! Essas promessas de cumplicidade e intenção fortes, de se acompanhar na saúde e na doença, em jovens em estado de paixão é meramente figurativo,
Precisa ter muito fôlego e resistência um amor pra não morrer, já que no terreno das emoções moram as maiores fragilidades, é preciso um dose maciça de disponibilidade, um que outro reforço em palavras, é preciso um elogio, uma massagem de vez em quando, é preciso intimidade, clareza, vontade de permanecer, desejo e prazer na permanência e não falta de escolha, quem está do nosso lado, merece nosso eu melhor , assim como nós o merecemos. quem já viveu “de um tudo” pode dizer que SIM, que pretende continuar e que SIIIIIIIIM essa amor é forte e valerá a pena!

Fiquei imensamente feliz de ter sido testemunha desse ritual de confirmação, mais do que isso, de ter sido madrinha, por que torço que o amor vença, que o amor resista, que o amor seja pra sempre branco!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

O AMOR É IMPORTANTE, PORRA!



Faixa inédita do cantor e compositor Criolo, que integrará o álbum "Nó na Orelha", a ser lançado em maio de 2011. Produzido por Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral.

Criolo - voz
Daniel Ganjaman - arranjo de cordas, teclados e guitarra
Marcelo Cabral -- arranjo de cordas, baixo e guitarra
Samuel Fraga - bateria
Renato Rossi- viola
Luiz Gustavo Nascimento - violino

Gravado e Mixado por Daniel Ganjaman no estúdio El Rocha.

Masterizado no estúdio El Rocha por Fernando Sanches.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Facebook uma solidão compartilhada...?



Estava conversando on line com uma amiga e ambas reclamávamos de um certo cansaço, uma certa preguiça, que tem sido cada dia mais frequente, de sair, e aí ela me comentou que riu muito com uma outra amiga, que disse que nosso cansaço não nos impede de ficar até altas horas conversando e trocando filmes e musicas pelo facebook. Foi assim que percebi: o facebook é nossa solidão compartilhada, estamos sós, pero no mucho, ou ao menos não tão sós parecemos, em conversas que podem durar horas...São os tempos modernos e ainda não sei se isso é uma evolução.

Algun anos atrás reencontrei um ex-namorado por acaso no bric, combinamos uma cerveja mais tarde num dos bares da cidade baixa. Ele preciso dizer, era quando namoramos e ainda permanecia o que chamam "bicho-grilo", avesso as tecnologias, adepto de naturalismos, uma pessoa excepcionalmente agradável,músico, poeta e alguém que eu queria muito sentar e conversar mais um tanto e tinha receio de perder de novo de vista. Sugeri: _ Me dá teu celular que te ligo para nos acharmos quando eu chegar no bar. Comentário pra lá de "natural" ao que ele sorridente me respondeu: Ah, não tenho celular, mas nunca precisamos de celular pra nos achar...

E é verdade, uma verdade bem básica e simples, antes nos encontrávamos naturalmente, bem antes quando até os telefones eram raros e custavam os olhos da cara, nos encontrávamos sem sequer uma ligação marcando o encontro.
Não lembro bem como fazíamos, se eram bilhetes, ou criávamos hábitos, ou faziamos visitas e combinações mais precisas, mas o fato é que nos encontrávamos...

Agora nos encontramos? Onde?

De certa forma essa animação me lembrou essa opção, ou solução, ou realidade...estamos convivendo cada dia com mais informações, sons e imagens, e a cada dia mais distantes. Menos toques, menos mãos, menos olhos nos olhos, menos cheiros, está sobrando visão e audição, e faltando tato & olfato, faltando contato...
E quase tenho certeza, de que ao menos em relação a encontros reais, isso é uma involução.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

por que a vida requer trilha...

me apaixonei por um blog que acabei de conhecer e já indiquei pra meio mundo...www.trilhapara.blogspot.com

A minha trilha de hoje especialmente escolhida lá...

o AMOR começa...

..."O amor começa casto ou com pecado, começa avisando que veio ou toma a gente desavisado. Começa na chuva , no sol, nas grandes alegrias e nas enormes privações. Começa o amor porque acaba. E por ter começo e fim motiva loucuras, paixões, as melhores letras das canções" Ricardo Soares leiam...

Este texto me lembrou um lindo do Paulo Mendes Campos - O amor acaba...

Hoje estou só querendo lembrar a delícia que é o AMOR começar!

Torquato ..o anjo torto!




" Tudo o que eu quero
É uma questão de gosto:
Um beijo, bolero
E pipoca moderna
... Mais o contra-resto
Menos nosso imposto
E cada vez mais perto
Do porto.

Coração correto."

Espiem o tanto mais que esse site tem das obras do grande Torquato Neto.
Torquato - O anjo torto

E essa, vocês sabiam que é também do Torquato?



Go Back
Torquato Neto
Composição : Sérgio Britto e Torquato Neto

Você me chama
Eu quero ir pro cinema
Você reclama
Meu coração não contenta
Você me ama
Mas de repente
A madrugada mudou
E certamente
Aquele trem já passou
E se passou, passou
Daqui pra melhor, foi
Só quero saber do que pode dar certo
Não tenho tempo a perder

terça-feira, 5 de abril de 2011

Sociedade dos poetas mortos

"Não lemos e escrevemos poesia porque é bonitinho.
Lemos e escrevemos poesia porque somos membros da raça humana e a raça humana está repleta de paixão.
E medicina, advocacia, administração e engenharia, são objetivos nobres e necessários para manter-se vivo.
Mas a poesia, beleza, romance, amor... é para isso que vivemos."

segunda-feira, 28 de março de 2011

metade...



Que a força do medo que eu tenho,
não me impeça de ver o que anseio.

Que a morte de tudo o que acredito
não me tape os ouvidos e a boca.

Porque metade de mim é o que eu grito,
mas a outra metade é silêncio…

Que a música que eu ouço ao longe,
seja linda, ainda que triste…

Que a mulher que eu amo
seja para sempre amada
mesmo que distante.

Porque metade de mim é partida,
mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece
e nem repetidas com fervor,
apenas respeitadas,
como a única coisa que resta
a um homem inundado de sentimentos.

Porque metade de mim é o que ouço,
mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz
que eu mereço.

E que essa tensão
que me corrói por dentro
seja um dia recompensada.

Porque metade de mim é o que eu penso,
mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste
e que o convívio comigo mesmo
se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto,
um doce sorriso,
que me lembro ter dado na infância.

Porque metade de mim
é a lembrança do que fui,
a outra metade eu não sei.

Que não seja preciso
mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito.

E que o teu silêncio
me fale cada vez mais.

Porque metade de mim
é abrigo, mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta,
mesmo que ela não saiba.

E que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade
para fazê-la florescer.

Porque metade de mim é platéia
e a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada.

Porque metade de mim é amor,
e a outra metade…
também

Ferreira Gullar

domingo, 27 de março de 2011

um adagio pra viver o domingo ...



Beethoven (1770-1827)
Concerto para Piano nº 5 em Mi Bemol Maior,
Adagio un poco nosso

segunda-feira, 21 de março de 2011

deve ser por que eu ando BOCÓ...

como o Manoel* me ensinou..

Enluarei faz três dias
por que ser tatu-bola
faz doer as costas
eu desenrosquei
deixei a agua pingar
bem no meu centro
se pingo
"infantiliza formiga"*
havia de me servir
e de dentro,
uma semente
quase árvore,
já nasceu acesa
mesmo sem ter fundamento
sem raiz
deu de brotar
só por vontade
de repente galho e folha
abana
só balanço e passarinho

vai ver se enreda no vento
nasceu pra ser voador
isso que parecia nó de peito
estava era inviesado e sem jeito
coisa que tem que ter asa
não combina com guardado
coisa que tem cor
não combina com escuro

virei árvore que voa

desisti de ser muro
coisa nem tão forte assim...

sexta-feira, 18 de março de 2011

poesias lindas..do Manoel de Barros

Que o Achutti nos deu de presente no facebook: Deu vontade de carregar pra sempre água em peneira...



"com o tempo a gente aprende, que o tamanho das coisas, há de ser medido, pela intimidade que temos com as coisas...deve ser assim como amor"

quarta-feira, 16 de março de 2011

Bilhete...

Se tu me amas, ama-me baixinho
...Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
...Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho . . . . ,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...

Ah , que delicia esse poeminha do Mário Quintana que o Marco Fronckowiak lembrou lá no facebook...poesia on line...

Mais um pouquinho de amor...

segunda-feira, 14 de março de 2011

voltando pra dentro...

Lembro que quando criança,eu passava tarde inteiras fazendo imagens nas nuvens, naquela cidade pequena, com quase nenhum movimento nas ruas de paralelepídedo, meu brinquedo era flutuar e imaginar...Depois, ganhei de presente da minha mãe, meu primeiro caleidoscópio e ficava um tempo enorme me enchendo de cor e reflexos, concentrada...eu era pra dentro, apesar do meus olhos estarem pra fora...eu era silenciosa, pensativa, quase triste...

Depois, por que fiquei adolescente e o mundo não costuma respeitar quem fica pelos cantos, me forcei a ser do centro, e falar mais do que pensar, a fazer os outros rirem, por que na adolescência ser aceita é uma condição doída e necessária, eu comecei a viver mais e mais pra fora...e os momentos de dentro, eram preenchidos com diários...

Mais tarde, os diários pareceram obsoletos e numa queima de passado fiz virarem cinzas... Comecei a fazer poesia, curtinhas, e eram meus diários mais compactos, relendo-as sei bem que emoção foi geradora de cada uma, que amor, que momento, que silêncio...Mas de fato, eu sei que vivia cada vez mais pra fora...

Hoje um amigo me mostrou: tenho 1.000 pessoas no facebook, e de repente isso tudo me pareceu demais.
Entendi que entrei nesse mundo de super exposição, câmeras e milhões de assuntos, no meio de tanto, tanto movimento, onde toda e qualquer emoção parece banalizada, senti vontade de parar, só um pouquinho...(pode ser Tpm)
Senti falta do tempo e da disponibilidade de me olhar, de rever minhas nuvens e reflexos internos...um pouco menos pra fora e muito mais entregue e silenciosa, me permitindo ser, diante do meu olhar mais atento...



Pra incorporar essa sensação, peguei essa foto bonita da Vicky Fernandez, por que tenho um carinho sem fim por varal...um fascínio pelas roupas criando vida própria, as camisas brancas do meu pai abanando em pleno vôo...

Acho que ando precisando de pátio,varal, silêncio...e sossegar ao fim do dia com banho quente, café com leite, pão com manteiga...ou com bolo recém feito lotadinho de dulce de leche...
Naquelas tardes minha mãe ou avó me chamava pra dentro... agora é o tempo , e a saudade...de mim...

terça-feira, 8 de março de 2011

Ser mulher é dificil pra ovário (e lindo!)



Um carinho na alma pra comemorar nosso dia,copiado do Roberto pra vocês!

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

a caixa que não possuo...

Há uns anos atrás bem no inicio do ano, fiz uma “queima de passado” chamei assim, a grande fogueira que fiz no pátio, embaixo de uma lua cheia. Alimentando o fogo além do álcool que joguei em tudo, estavam diários, agendas, bilhetes e cartas.
Me pareceu simbólico e necessário fazer o passado virar cinzas...Eu não estava exatamente feliz e julguei que era o passado ali guardado e vez ou outra revisitado o que me gerava uma sensação de não liberdade, o passado tinha virado bem mais que uma pedra no meu sapato, era um peso, que na época me parecia não me deixar nadar, subir ou voar.
Digo tudo isso por que não tenho mais o peso, mas também não tenho mais nenhum resquício de várias Nádia que eu queria agora relembrar, de outros tempos e sorrisos, de outras esperanças, de outras tentativas, é como se eu tivesse me sonegado o direito de ser plena, de me lembrar...
Justamente o que mais dói , o que a gente ingenuamente queima pra
esquecer, como se tivesse poder de Phoenix volta, mas o que poderia ser oásis, o que poderia ser o sopro na dor, o que poderia ser a garantia do “pronto,pronto..isso passa”, minhas próprias conclusões em diários, as cartas que me carinharam, as lembranças fúteis, como um papel de sonho de valsa, uma folha amarelada em algum outono, algum bilhete apaixonado, esses outros pedaços do meu mosaico queimaram junto e infelizmente não tem volta.

Por que lembrança também dá colo, sinto falta de colo vez ou outra.

Fiz virar cinza não só as dores com as quais eu não queria mais conviver, por pura inabilidade, fiz virar cinza muita vida, meus registros, muitos sonhos, muita emoção, e agora, aqui, sem nenhuma caixa pra me abrir e me mostrar, me sinto capenga, faltando pedaços.
No momento que juntei tudo aquilo me pareceram muito peso pra continuar guardando e rememorando a cada dificuldade, olhar o passado vez o outra me lembrava fugir pro antes, não viver plenamente o agora.
Não queria alimentar a crença de que minha vida tinha sido melhor antes, queimei não o passado, mas a minha sempre presente vontade de voltar e refazê-lo.
Queria fazer a vida recomeçar, sem marca...E não me queria mais voltada pro antes, mas para o futuro.
E agora? Agora tenho o presente e um emaranhado de memória, confundo datas, e como não tenho registro físicos, como não tenho provas, tenho o que resolver ter e lembrar, o que vez o outra me parece um monte de ficção, de um jeito inconseqüente cometi auto lobotomia.
Quero a minha caixa de volta, quero saber de mim...

a falta de um pai...

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

"palavra quando acesa, não queima em vão..."- Quinteto Violado



"Se o que nos consome fosse apenas fome
Cantaria o pão
Como o que sugere a fome
Para quem come
Como o que sugere a fala
Para quem cala
Como que sugere a tinta
Para quem pinta
Como que sugere a cama
Para quem ama
Palavra quando acesa
Não queima em vão
Deixa uma beleza posta em seu carvão"...

ontem , hoje e sempre...

Ontem foi noite de Alice, hoje manhã de Leminsky e segue o baile...

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

SOS



Socorro de Alice Ruiz

Socorro, eu não estou sentindo nada.
Nem medo, nem calor, nem fogo,
Não vai dar mais pra chorar
Nem pra rir.

Socorro, alguma alma, mesmo que penada,
Me empreste suas penas.
Já não sinto amor nem dor,
Já não sinto nada.

Socorro, alguém me dê um coração,
Que esse já não bate nem apanha.
Por favor, uma emoção pequena,
Qualquer coisa que se sinta,
Tem tantos sentimentos,
Deve ter algum que sirva.

Socorro, alguma rua que me dê sentido,
Em qualquer cruzamento,
Acostamento, encruzilhada,
Socorro, eu já não sinto nada.

fugas...


Foto Marcelo Nunes

Quando eu era criança minha mãe construiu um brinquedo mágico, com espelhos e reflexos, tão cheio de cor e surpresa, que bastava olhá-lo contra luz que a viagem e a construção de mil formas estava garantida, era um caleidoscópio e mais que tudo, meu esconderijo...eu ficava um tempo enorme só e ali fazendo formas, minha rota de fuga particular.

Quando vi essa foto do Marcelo Nunes, gostei da idéia de passar a tarde nessa foto, correr pra dentro dela, e ficar lá na beira do mar dourado, sentindo o ventinho de final de tarde que consegui pressentir, achei meu caleidoscópio de gente grande, viajo nas imagens lindas dos meus amigos...mais nova rota de fuga.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

"pela minha lei, a gente é obrigado a ser feliz!"



Grande Chico Buarque...pela minha lei também... isso de ser feliz, é uma predisposição, um talento que só alguns tem , de viver plenamente os detalhes felizes que se apresentam e desses detalhes construir felicidade...e eu tenho essa capacidade de ser feliz por detalhes, graças!!

Fotos Luciana Mena Barreto retiradas do seu blog lindo! Espia...

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Galeano me fez lembrar minha gaveta de guardados da infância...

CAI NO MUNDO E NÃO SEI COMO VOLTAR
de Eduardo Galeano

O que acontece comigo é que não consigo andar pelo mundo pegando coisas e trocando-as pelo modelo seguinte só por que alguém adicionou uma nova função ou a diminuiu um pouco…

Não faz muito, com minha mulher, lavávamos as fraldas dos filhos, pendurávamos na corda junto com outras roupinhas, passávamos, dobrávamos e as preparávamos para que voltassem a serem sujadas.
E eles, nossos nenês, apenas cresceram e tiveram seus próprios filhos se encarregaram de atirar tudo fora, incluindo as fraldas. Se entregaram, inescrupulosamente, às descartáveis!

Sim, já sei. À nossa geração sempre foi difícil jogar fora. Nem os defeituosos conseguíamos descartar! E, assim, andamos pelas ruas, guardando o muco no lenço de tecido, de bolso.
Nããão! Eu não digo que isto era melhor. O que digo é que, em algum momento, me distraí, caí do mundo e, agora, não sei por onde se volta.

O mais provável é que o de agora esteja bem, isto não discuto. O que acontece é que não consigo trocar os instrumentos musicais uma vez por ano, o celular a cada três meses ou o monitor do computador por todas as novidades.
Guardo os copos descartáveis! Lavo as luvas de látex que eram para usar uma só vez.

Os talheres de plástico convivem com os de aço inoxidável na gaveta dos talheres! É que venho de um tempo em que as coisas eram compradas para toda a vida!

É mais! Se compravam para a vida dos que vinham depois! A gente herdava relógios de parede, jogos de copas, vasilhas e até bacias de louça.
E acontece que em nosso, nem tão longo matrimônio, tivemos mais cozinhas do que as que haviam em todo o bairro em minha infância, e trocamos de refrigerador três vezes.

Nos estão incomodando! Eu descobri! Fazem de propósito! Tudo se lasca, se gasta, se oxida, se quebra ou se consome em pouco tempo para que possamos trocar.
Nada se arruma. O obsoleto é de fábrica.
Aonde estão os sapateiros fazendo meia-solas dos tênis Nike? Alguém viu algum colchoeiro encordoando colchões, casa por casa? Quem arruma as facas elétricas? o afiador ou o eletricista? Haverá teflon para os funileiros ou assentos de aviões para os talabarteiros?

Tudo se joga fora, tudo se descarta e, entretanto, produzimos mais e mais e mais lixo. Outro dia, li que se produziu mais lixo nos últimos 40 anos que em toda a história da humanidade.

Quem tem menos de 30 aos não vai acreditar: quando eu era pequeno, pela minha casa não passava o caminhão que recolhe o lixo! Eu juro! E tenho menos de ... anos! Todos os descartáveis eram orgânicos e iam parar no galinheiro, aos patos ou aos coelhos (e não estou falando do século XVII). Não existia o plástico, nem o nylon. A borracha só víamos nas rodas dos autos e, as que não estavam rodando, as queimávamos na Festa de São João. Os poucos descartáveis que não eram comidos pelos animais, serviam de adubo ou se queimava..
Desse tempo venho eu. E não que tenha sido melhor.... É que não é fácil para uma pobre pessoa, que educaram com "guarde e guarde que alguma vez pode servir para alguma coisa", mudar para o "compre e jogue fora que já vem um novo modelo".
Troca-se de carro a cada 3 anos, no máximo, por que, caso contrário, és um pobretão. Ainda que o carro que tenhas esteja em bom estado... E precisamos viver endividados, eternamente, para pagar o novo!!! Mas... por amor de Deus!
Minha cabeça não resiste tanto. Agora, meus parentes e os filhos de meus amigos não só trocam de celular uma vez por semana, como, além disto, trocam o número, o endereço eletrônico e, até, o endereço real.

E a mim que me prepararam para viver com o mesmo número, a mesma mulher, a mesma e o mesmo nome (e vá que era um nome para trocar). Me educaram para guardar tudo. Tuuuudo! O que servia e o que não servia. Por que, algum dia, as coisas poderiam voltar a servir.

Acreditávamos em tudo. Sim, já sei, tivemos um grande problema: nunca nos explicaram que coisas poderiam servir e que coisas não. E no afã de guardar (por que éramos de acreditar), guardávamos até o umbigo de nosso primeiro filho, o dente do segundo, os cadernos do jardim de infância e não sei como não guardamos o primeiro cocô.

Como querem que entenda a essa gente que se descarta de seu celular a poucos meses de o comprar? Será que quando as coisas são conseguidas tão facilmente, não se valorizam e se tornam descartáveis com a mesma facilidade com que foram conseguidas?
Em casa tínhamos um móvel com quatro gavetas. A primeira gaveta era para as toalhas de mesa e os panos de prato, a segunda para os talheres e a terceira e a quarta para tudo o que não fosse toalha ou talheres. E guardávamos...

Como guardávamos!! Tuuuudo!!! Guardávamos as tampinhas dos refrescos!! Como, para quê? Fazíamos limpadores de calçadas, para colocar diante da porta para tirar o barro. Dobradas e enganchadas numa corda, se tornavam cortinas para os bares. Ao fim das aulas, lhes tirávamos a cortiça, as martelávamos e as pregávamos em uma tabuinha para fazer instrumentos para a festa de fim de ano da escola.

Tuuudo guardávamos! Enquanto o mundo espremia o cérebro para inventar acendedores descartáveis ao término de seu tempo, inventávamos a recarga para acendedores descartáveis. E as Gillette até partidas ao meio se transformavam em apontadores por todo o tempo escolar. E nossas gavetas guardavam as chavezinhas das latas de sardinhas ou de corned-beef, na possibilidade de que alguma lata viesse sem sua chave.
E as pilhas! As pilhas das primeiras Spica passavam do congelador ao telhado da casa. Por que não sabíamos bem se se devia dar calor ou frio para que durassem um pouco mais. Não nos resignávamos que terminasse sua vida útil, não podíamos acreditar que algo vivesse menos que um jasmim. As coisas não eram descartáveis. Eram guardáveis.

Os jornais!!! Serviam para tudo: para servir de forro para as botas de borracha, para por no piso nos dias de chuva e por sobre todas as coisa para enrolar.

Às vezes sabíamos alguma notícia lendo o jornal tirado de um pedaço de carne!!! E guardávamos o papel de alumínio dos chocolates e dos cigarros para fazer guias de enfeites de natal, e as páginas dos almanaques para fazer quadros, e os conta-gotas dos remédios para algum medicamento que não o trouxesse, e os fósforos usados por que podíamos acender uma boca de fogão (Volcán era a marca de um fogão que funcionava com gás de querosene) desde outra que estivesse acesa, e as caixas de sapatos se transformavam nos primeiros álbuns de fotos e os baralhos se reutilizavam, mesmo que faltasse alguma carta, com a inscrição a mão em um valete de espada que dizia "esta é um 4 de bastos".

As gavetas guardavam pedaços esquerdos de prendedores de roupa e o ganchinho de metal. Ao tempo esperavam somente pedaços direitos que esperavam a sua outra metade, para voltar outra vez a ser um prendedor completo.

Eu sei o que nos acontecia: nos custava muito declarar a morte de nossos objetos. Assim como hoje as novas gerações decidem matá-los tão-logo aparentem deixar de ser úteis, aqueles tempos eram de não se declarar nada morto: nem a Walt Disney!!!

E quando nos venderam sorvetes em copinhos, cuja tampa se convertia em base, e nos disseram: Comam o sorvete e depois joguem o copinho fora, nós dizíamos que sim, mas, imagina que a tirávamos fora!!! As colocávamos a viver na estante dos copos e das taças. As latas de ervilhas e de pêssegos se transformavam em vasos e até telefones. As primeiras garrafas de plástico se transformaram em enfeites de duvidosa beleza. As caixas de ovos se converteram em depósitos de aquarelas, as tampas de garrafões em cinzeiros, as primeiras latas de cerveja em porta-lápis e as cortiças esperaram encontrar-se com uma garrafa.

E me mordo para não fazer um paralelo entre os valores que se descartam e os que preservávamos. Ah!!! Não vou fazer!!!
Morro por dizer que hoje não só os eletrodomésticos são descartáveis; também o matrimônio e até a amizade são descartáveis. Mas não cometerei a imprudência de comparar objectos com pessoas.

Me mordo para não falar da identidade que se vai perdendo, da memória coletiva que se vai descartando, do passado efêmero. Não vou fazer.
Não vou misturar os temas, não vou dizer que ao eterno tornaram caduco e ao caduco fizeram eterno.
Não vou dizer que aos velhos se declara a morte apenas começam a falhar em suas funções, que aos cônjuges se trocam por modelos mais novos, que as pessoas a que lhes falta alguma função se discrimina o que se valoriza aos mais bonitos, com brilhos, com brilhantina no cabelo e glamour.

Esta só é uma crônica que fala de fraldas e de celulares. Do contrário, se misturariam as coisas, teria que pensar seriamente em entregar à bruxa, como parte do pagamento de uma senhora com menos quilômetros e alguma função nova. Mas, como sou lento para transitar este mundo da reposição e corro o risco de que a bruxa me ganhe a mão e seja eu o entregue...
* Jornalista e escritor uruguaio

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

por que o amor está no ar...Benedetti...

Cuando uno se enamora
las cuadrillas
del tiempo hacen escala en el olvido
la desdicha se llena de milagros
el miedo se convierte en osadía
y la muerte no sale de su cueva
enamorarse
es un presagio gratis
una ventana abierta al árbol nuevo
una proeza de los sentimientos
una bonanza casi insoportable
y un ejercicio contra el infortunio

por el contrario
desenamorarse
es ver el cuerpo como es y no
como la otra mirada lo inventaba
es regresar más pobre al viejo enigma
y dar con la tristeza en el espejo.


E como amam USTEDES???

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

um amor possivel...



Ontem assisti Jose&Pilar e me emocionei muito, lindos momentos compartilhados...

Pouco antes de encarar a chuvinha fina, para ver essa historia de amor, lia Comprometida de Elizabeth Gilbert e sublinhei a seguinte passagem:
"éramos duas pessoas bem legais, trazendo as feridas de algumas decepçoes pessoais enormes e bastante comuns, e procurávamos algo que fosse simplesmente possivel no outro: uma certa gentileza, uma certa atenção , um certo anseio em comum de confiar e merecer confiança ..."

Provavelmente um bom amor seja só e tudo isso: essa possibilidade, essa disponibilidade,um dia a dia compatilhado com ternura e intimidade...

domingo, 9 de janeiro de 2011

O que preciso aprender???

Eu passei um final de ano, completamente diferente do que havia longamente planejado e pago, nosso cruzeiro pelo nordeste em família, embarcados e sorridentes, subitamente foi cancelado. Passado o primeiro momento em que frustrada como uma criança de 6 anos de idade ameacei “beicinho” e morri de pena de mim, cai na real e fui grata, mil vezes grata, por que a manutenção dos meus planos iniciais poderiam e certamente teriam nos custado muita dor e perda.
É difícil reconhecer, mas Deus (e digo Deus por que é Nele que eu creio) escreve sempre certo, mesmo que nos pareça torto, já que muitas vezes vem contra o que planejamos
Eu divido com vocês a certeza que hoje tenho, de que Deus, destino, vida, ou seja, lá como vocês chamam essa energia que está muito além do nosso pseudo-controle, tem sempre razão e muitas vezes vai alterar as peças e mudar os planos, tendo por trás disso um porquê, que muitas vezes revoltados, não entenderemos.
O fato é que inúmeras vezes estamos forçando a barra, estamos insistindo no improvável, estamos teimando, fazendo queda de braço, estamos querendo provar poder, estamos querendo fugir ou estamos querendo controlar e bobamente acreditando que podemos tudo.
Podemos muito, podemos quase tudo, mas em algum momento seremos ínfimos, e todo e qualquer planejamento anterior, toda forma de poder que supomos ter inclusive da mente, não darão respostas e não serão suficientes, e aí é pensar: o que é mesmo que preciso aprender com tudo isso?
E tentar aprender...
Eu sempre nutri um ódio velado à palavra resignação, que segundo alguns era um componente necessário na manutenção dos casamentos, e sempre me soava como uma carga de ressentimento e frustração sem preço, mas talvez o que eu tenha aprendido, ao passar a virada de ano num hospital, é que resignação é um componente que a maturidade e a sabedoria ensinam, e que é mesmo fundamental.
Se as coisas não saíram exatamente como planejamos, é por precisamos parar e aproveitar pra olhar em volta, olhar pra dentro e tirarmos alguma alegria nesse aprendizado, que alguma sempre há.
Nos corredores daquele hospital vi de tudo: câncer, AIDS, infecção generalizada, leucemia e vi sorrisos e esperanças atrás de sintomas e dores, mas também vi amores. Também vi na emergência gente esperando um leito sem conseguir, por que aquele era um ótimo hospital particular em Copacabana ao qual só alguns planos de saúde davam acesso. A doença não escolhe por classe social, não faz distinção alguma, a doença é democrática, já o acesso a saúde, infelizmente não.
Aprendi que podemos pedir muito e esperar amores, bens, viagens, abundância, etc. Mas só mesmo a saúde interessa, e na falta dela, um bom plano de saúde, paz de espírito e uma família que nos ampare. Adoecer tem um custo monetário impagável por aqui e um custo emocional, que só um bom amor incondicional pode dar alento, pode oferecer ombro, pode acompanhar passos lentos.
Aprendam a pedir saúde e um amor parceiro, por que não é á toa que fazem nos casamentos a promessa na saúde e na doença, na fragilidade é onde infinitamente o amor se mostra.

Foto G1

ps- preciso contar que como minha mãe, fraca que estava, adormeceu muito cedo, aproveitei e “fugi” do hospital, pouco antes da meia-noite, queria ver os fogos de perto. A beira da praia estava há umas seis quadras do hospital e lá fui, sozinha e foi encantador, não só os fogos que são mesmo um espetáculo, mas o clima, as famílias vestindo branco e confraternizando, a paz. Foi lindo, emocionante estar ali, receber tudo aquilo, como benção e então sorri como uma criança e agradeci.

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