quinta-feira, 24 de abril de 2014

Oraçao do Fundo do poço - Lélia Almeida

"Todo mundo tem medo do fundo do poço, ninguém quer ir ao fundo do poço e quando alguém tenta nos contar da experiência que o levou ao fundo do poço, não consegue ser absoluto, se engasga, fraqueja, percebe que a reprodução da experiência, a expressão da experiência, é praticamente impossível. O fundo do poço é uma experiência, é um sentimento que faz parte do terreno do indizível. Porque são raros os momentos da nossa vida que vamos realmente ao fundo do poço, em geral só temos valor, coragem para ir até a metade, e no lugar do que seria a outra metade, arranjamos expedientes como doenças, vícios, péssimos hábitos, brigas injustas, amores mentirosos, enganos. Ir ao fundo do poço não é para qualquer um, é coisa para iniciados, para bravos, para fortes e, que em geral estão travestidos de frágeis e fracassados. É o fundo do poço quem nos escolhe. O fundo do poço é um luxo. Uma travessia. Umbral. O fundo do poço é o lugar onde se está só. Lugar da solidão e domicílio da escuridão, onde não há mais nada além do ritmo silencioso da nossa alma machucada e retirada, onde nos enovelamos ao redor do próprio corpo ferido e pedimos trégua, trégua para Deus, para os amigos e os inimigos, para os filhos e os vizinhos, para o mundo, porque as nossas forças estão concentradas nisto e nada mais: ir até o fundo do poço, e ficar ali. E ficar ali. E aprender a ficar, e aprender a ficar cada vez que a vontade é sair, e gritar, mas Meu Deus, quando é que passa se parece que não passa nunca, que nunca mais vai passar. O fundo do poço nos faz exagerar, a gente diz, não vai passar nunca, porque o fundo é muito fundo e não há forças para voltar, para sair. O fundo do poço é o lugar do silêncio, onde se ouve só o que conta: aquela voz mágica da nossa intuição, do coração, da nossa sabedoria mais profunda e primitiva, do nosso instinto sagrado. E é preciso concentração, silêncio, sobretudo muita calma e tranquilidade para ouvir esta voz mansa e firme, que é a voz que cuida da gente. É preciso silêncio e escuta fina para ouvir a voz da própria alma, dos próprios e sinceros sentimentos. O fundo do poço é um espelho, de superfície embaçada às vezes, mas que quase sempre reflete imagens nítidas, mesmo que os nossos olhos nem sempre estejam prontos para poder ver. Para poder ver a nossa imagem triste, ouvir o nosso choro e a nossa fúria, a nossa vaidade ferida, o nosso amor partido, as nossas esperanças roubadas, somos feios na imagem deste espelho que é o fundo do poço, queremos ser outros, somos feios e tristes e não vai passar nunca. Mas o fundo do poço é um espelho, é o lugar da nossa humanidade, da nossa nudez, da nossa ignorância e da nossa intensidade emocional, é o lugar onde temos de aprender a pedir perdão, perdão para nós mesmos, porque erramos e nos enganamos, perdão porque éramos pequenos e egoístas, perdão porque somos altivos e pensamos que o amor existe para nos servir e suprir, o fundo do poço é um altar, onde temos de aprender a reverenciar o amor, nas suas formas mais simples, secretas, singelas e misteriosas. Estar no fundo do poço é aprender amar. Amar. Calmamente, silenciosamente, sem contar para ninguém, sem anunciar no rádio, sem ter de mandar mensagens insuficientes pelo telefone, internet, celular, um amor que exige silêncio, entrega e mistério. Mistério de não compreender, mistério de não entender, mistério de não poder contar. O fundo do poço é uma fonte de águas limpas e cristalinas, onde devemos aprender a beber aos poucos, sem sofreguidão, porque a sede da alma de quando se está no fundo do poço parece ser inesgotável, mas não é, inesgotável é a fonte, uma fonte pequena de água clara que brota em ritmo regular e que não seca nunca, aí temos de ir e aprender a beber novamente, da alma, do silêncio, do que se é e ainda não se sabe. O fundo do poço é o lugar do sonho, do desejo, e nem todos podemos entrar em contato com os nossos mais secretos desejos, é preciso treinamento para poder compreendê-los, selecioná-los e saber como vamos reconhecê-los em nós, como vamos nos tornar eles. Por isso é preciso tempo para ir ao fundo do poço, por isso é preciso um tempo sem fim para estar no fundo do poço. O fundo do poço é um lugar úmido, daquela umidade necessária e suja de onde brotam as delicadas e verdes avencas, é escuro, como a terra mais secreta e dura de onde brotam as sementes mais difíceis, de onde explodem as mais improváveis, o fundo do poço é frio e distante, daí este movimento de abraçar o corpo, acarinhar a alma em busca de calor novamente, de calor, o fundo do poço é uma estufa ao contrário, é um avesso, só aquece o que está por dentro, concentra a energia, o fundo do poço é uma terra de ninguém, longe de qualquer lugar, zona limítrofe, de fronteira entre o que jamais voltarei a ser e o que eu nem sonhava que poderia ser, aí estamos nós, sós e perdidos, sem pai, sem mãe, sem nada. O fundo do poço é Deus, o Deus que se quiser. O fundo do poço é um coração, um rato, uma barata, uma prenda de roupa antiga, uma carta de despedida, aquela noite de amor, os filhos que se foram, os amigos mortos, os amores que não vieram, o fundo do poço é a nossa medida, a história das nossas perdas, a história dos nossos sonhos, das nossas ilusões.
O fundo do poço é um buraco negro no universo, quando chegamos ao fundo do poço não temos forças para olhar para o céu, olhamos para dentro, olhamos para dentro e, um dia, dentro é como o céu que se vê do fundo do poço, e aí somos projetados para o universo, com força e desajeitamento, para um universo brilhante e luminoso, daqueles de doer nos olhos, somos projetados para as estrelas, para o incomensurável e também indizível brilho das estrelas. O fundo do poço é o céu. O fundo do poço é iluminado, o fundo do poço é o lugar da nossa dor que é o mesmo lugar da nossa alegria. Da nossa desesperança e do adeus. O fundo do poço é um berço, úmido, escuro, quente por dentro, é uma urna fechada, o fundo do poço é uma matriz, um ovo, uma casca, uma casa. O fundo do poço é quando a gente está em Deus, o fundo do poço é quando a gente volta para casa, o fundo do poço é quando a gente chega em casa, e pode estar, descansar, ficar e ser. Respirar a brisa das noites suaves de antes do verão, manhãs frias, tardes chuvosas de outono, brilho das estrelas, cheiro de mar, o entardecer tranquilo, noites sem dormir, o fundo do poço é onde aprendemos a olhar o mundo, o beco, ruas perdidas e tortuosas, velhas e pequenas igrejas abandonadas, a natureza, o outro. O fundo do poço é um luxo. O fundo do poço não é para qualquer um. O céu também não." (Lélia Almeida)


Depois de ler esse texto lindo da Lélia, lembrei de uma poesia antiga...
PERDOR (antes de ganhar o céu, a gente precisa viver o perdor- perder - doer- se perdoar pra subir!)
 
Perdor, é esse vazio
habitado de pena
a carga de perda
e de dor, dos finais

uma necessidade extrema
de se auto-piedar-perdoar
o luto do que se sonhou
sem conseguir realizar...

talvez perdor
seja esse não sei quê
que sobra vago
onde deveria vingar
a esperança...

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Meus pais- Gregorio Duvivier

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/gregorioduvivier/2014/04/1440143-meus-pais.shtml

eu gosto imensamente desse menino!
e quantas vezes também quis voltar correndo pra um colo sossego que já não existe mais...a gente cresce e os medos crescem também...

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