terça-feira, 23 de agosto de 2011

Palavra (En)cantada...



Os Três Mal-Amados
João Cabral de Melo Neto

Joaquim:

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.


As falas do personagem Joaquim foram extraídas da poesia "Os Três Mal-Amados", constante do livro "João Cabral de Melo Neto - Obras Completas", Editora Nova Aguilar S.A. - Rio de Janeiro, 1994, pág.59.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

"a arte inventa a vida "



A vida bate de Ferreira Gullar

Não se trata do poema e sim do homem
e sua vida
- a mentida, a ferida, a consentida
vida já ganha e já perdida e ganha
outra vez.
Não se trata do poema e sim da fome
de vida,
o sôfrego pulsar entre constelações
e embrulhos, entre engulhos.
Alguns viajam, vão
a Nova York, a Santiago
do Chile.
Outros ficam
mesmo na Rua da Alfândega, detrás
de balcões e de guichês.
Todos te buscam, facho
de vida, escuro e claro,
que é mais que a água na grama
que o banho no mar, que o beijo
na boca, mais
que a paixão na cama.
Todos te buscam e só alguns te acham.
Alguns
te acham e te perdem.
Outros te acham e não te reconhecem
e há os que se perdem por te achar,
ó desatino
ó verdade, ó fome
de vida!
O amor é difícil
mas pode luzir em qualquer ponto da cidade.
E estamos na cidade
sob as nuvens e entre as águas azuis.
A cidade.
Vista do alto
ela é fabril e imaginária, se entrega inteira
como se estivesse pronta.
Vista do alto,
com seus bairros e ruas e avenidas, a cidade
é o refúgio do homem, pertence a todos e a ninguém.
Mas vista
de perto,
revela o seu túrbido presente, sua
carnadura de pânico: as
pessoas que vão e vêm
que entram e saem, que passam
sem rir, sem falar, entre apitos e gases.
Ah, o escuro
sangue urbano
movido a juros.
São pessoas que passam sem falar
e estão cheias de vozes
e ruínas .
És Antônio?
És Francisco? És Mariana?
Onde escondeste o verde
clarão dos dias?
Onde
escondeste a vida
que em teu olhar se apaga mal se acende?
E passamos
carregados de flores sufocadas.
Mas, dentro, no coração,
eu sei,
a vida bate.
Subterraneamente,
a vida bate.
Em Caracas, no Harlem, em Nova Delhi,
sob as penas da lei,
em teu pulso,
a vida bate.
E é essa clandestina esperança
misturada ao sal do mar
que me sustenta
esta tarde
debruçado à janela de meu quarto em Ipanema
na América Latina."

"eu não quero ter razão, eu quero é ser feliz" Ferreira Gullar ...

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Cinema Paradiso...poesia suave!



Por que esse filme é lindo e sempre vale recordar!!

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

a arte da Cla...poesia doce!

estes são só os esboços da doce arte da Clarissa Motta Nunes ...e eu já AMEI!!!

Parabéns, meu velho!!!

Hoje meu pai, se já não fosse eterno, estaria de aniversário! Saudade é luz !

Meu velho, boa gente, brincalhão, carinhoso e cheiroso é minha referencia de vida, como cantava o Peninha: "ter saudade até que é bom, é melhor do que caminhar vazio"...e sou grata pelo tempo que pude aproveitar a convivência e o amor dele!

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Por que amor me faz bem!!!



Enluarei faz três dias
por que ser tatu-bola
faz doer as costas
eu desenrosquei
deixei a agua pingar
bem no meu centro
se pingo
"infantiliza formiga"*
havia de me servir
e de dentro,
uma semente
quase árvore,
já nasceu acesa
mesmo sem ter fundamento
sem raiz
deu de brotar
só por vontade
de repente galho e folha
abana
só balanço e passarinho

vai ver se enreda no vento
nasceu pra ser voador
isso que parecia nó de peito
estava era inviesado e sem jeito
coisa que carece ter asa
não combina com guardado
coisa que suspira cor
não combina com escuro

assim
virei árvore que voa

desisti de ser muro
coisa nem tão forte assim...

*infantilizar formiga é uma sacada poética, entre tantas maravilhas do Manoel de Barros, a quem eu dedico esse poema...ele, assim como o amor, me faz bem...

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

De repente...

Sai do filme levinha, pronta pra um amor bonito, a lua rindo pra mim, me fez cantar diferente a música do Arnaldo Antunes: meu coração, bate por saber, que meu peito é uma porta, que alguém vai atender... Tinha estrelas alem da lua sorridente, amanha fará sol e eu sei...

Não foi o filme: Estranhos normais ( mas assisti-lo vale! Éuma viagem doida e boa)
O que aconteceu, de repente: foi uma sensação-certeza que que nasceu no escuro e me iluminou!

Isso de magia e certas poções, vem mesmo é das misturas internas, com o tempo, basta quere e deixar que se iluminem!

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