quarta-feira, 30 de julho de 2014

Não há nada melhor do que estar apaixonado. Nem pior...

Nesse texto Margarida Rebelo Pinto, me representa!

PIPOCAS E BORBOLETAS - Margarida Rebelo Pinto

Não há nada melhor do que estar apaixonado. Nem pior, já dizia o Miguel Esteves Cardoso. O cérebro fica alterado: vemos as cores mais nítidas, as árvores mais altas, a lua maior. O sol fica mais quente, os dias enormes e a noites, sem fim.
Estar apaixonado é ao mesmo tempo um estado de grande graça e de desgraça profunda. O nosso bem-estar fica pendurado sem sonhos e expectativas que deixam de passar pela nossa vontade porque o Outro entra dentro do nosso coração como um invasor secreto, senta-se na sala, dorme na cama e nunca mais sai de lá, mesmo que esteja a quilometros de distância. O Outro passa a fazer parte integrante de Nós e a simples visão do mundo sem ele faz com este se torne num lugar frio, vazio e hostil. Quando nos apaixonamos, criamos uma necessidade nova e tirânica, a de ver, de estar e de sentir o objeto do nosso amor como se fizesse parte de nós. Questão é que não faz, e é isso que temos de perceber em todos os estados da paixão: no início, no meio e no fim, quer esta se transforme, ou não, em uma grande história de amor.
Eu também gosto de sentir borboletas no estômago. Gosto de dar beijos sem fim, de agarrar com as duas mãos o corpo que amo e sentir-lhe o cheiro a pipocas no pescoço. Gosto de fechar os olhos sempre que não está ao meu lado e de imaginar a sua presença, o seu toque, os braços a envolverem-me, a voz quente a sussurrar-me e surdina o quanto me quer, como um segredo bem guardado. Gosto da vertigem, do desejo, da vontade, da imaginação. Mas depois preciso de outras coisas.
Há mais mundo para lá das borboletas que nos sacodem e do cheiro a pipocas que nos estonteia, como um perfume dos deuses. Para que uma paixão perdure e se transforme em amor, é preciso tempo, paz, segurança e acima de tudo, é preciso confiança. A paixão é feita de confiança cega; o amor é feito de confiança construída. Só vale a pena viver a vertigem se o caminho nos levar a um porto seguro. Só vale a pena arriscar voar alto, se levarmos para-quedas, se o Outro nos puder salvar. E nem sempre pode, porque nem sempre sabe, quer, ou consegue faze-lo. O Outro, que queremos amar sem medo, tem os seus medos, os seus traumas, os seus problemas. O Outro é sempre outra pessoa, ainda que faça parte de nós. Por isso é preciso dar-lhe tempo e espaço, ir percebendo se quer o mesmo que nós, por mais que nos ame, por mais que as borboletas e as pipocas não nos larguem. O Outro nunca será exatamente como sonhámos nem irá fazer tudo o que queremos, por isso, nada como o tempo para perceber se as borboletas e as pipocas voam e saltam para nos fazer felizes.
Em caso afirmativo, são o melhor da vida. Mas se nos cansam e nos enfraquecem, se para lá do que sentimos e sonhamos, o medo e a angústia prevalecem, então mais vale abrir e janela e manda-las embora. Viver uma paixão é uma questão de acaso: viver um grande amor é uma questão de sorte. E a sorte também se constrói.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

As mais doídas são as palavras não ditas

"João queria pedir desculpas. Teresa queria declarar o seu amor. Luíza, desaguar os anos de mágoa. Pedro queria pedir um abraço. Joana, perdão. Lúcio queria apenas licença para ser quem era. Paulo, aprovação. Camila, explicação. Helena queria dizer que não faria de novo. Não, outra vez não. Fabrício queria um sorriso. Ana, devolução. José queria dizer obrigado. Marília só queria que soubesse que havia perdoado. Foi, deu, ficou pra trás. Cecília queria dizer não. Augusto, sim. Frederico queria dizer adeus. Mas João não disse. Nem Teresa. Nem Luíza. Pedro. Joana. Ou Paulo. Camila. Helena. Não disse o Fabrício. Nem a Ana. O José. Marília ou Cecília. O Augusto não disse. Frederico também não. Não disseram porque tiveram medo. Por causa da distância. Não disseram porque faltaram as palavras. Faltou a oportunidade, a força de vontade. Não disseram porque emudeceram, porque as línguas eram diferentes como diferentes eram os sinais. Não disseram porque não valeria à pena. Não faria a diferença. Porque não conseguiram. Porque deixaram para depois, e o depois nunca chegou. São infinitas as razões e não razões pelas quais deixamos de dizer algo que precisávamos ter dito, gostaríamos de ter dito. Não apenas por falar. Para desatar nós e seguir adiante. É que o silêncio, às vezes, é menos assustador que a palavra. No silêncio, somos rei e senhor. Nosso domínio é soberano, porque só a nós diz respeito. Quebrar o silêncio é arcar com as consequências. É enfrentar. O silêncio não traz enfrentamento, e os riscos são poucos. Mas as alegrias também. Quantas pessoas passam a vida sem ter dito o que realmente queriam? Sem ter feito as pazes ou ter rompido o que deveria ser rompido? Sem dar sequência ou terminar o que deveria ser terminado? Um ponto final ou um ponto de partida. Não. As palavras não ditas são reticências. A palavra não dita consome e esmaga. Dependendo daquilo que se quer dizer, o não dizer é um discurso calado, solitário e ininterrupto. É um nó que não desata. Um conjunto de letras e sílabas com o peso de todas as letras, todas as sílabas e todas as combinações possíveis do todos os alfabetos, porque é aquilo que não teve um fim. Ficou por ser. A palavra não dita é a palavra que, presa, aprisiona. Entristece. Não são as palavras feias as mais doídas. As mais doídas são as palavras não ditas. Se você tem algo por dizer, diga. Não deixe para depois, porque o depois pode não chegar."
MARIA DOLORES tem 36 anos, é jornalista, produtora cultural, dona de casa, mãe de um adolescente e de um menino de três anos, mineira na terra da garoa, tentando fazer tudo ao mesmo tempo, inclusive quando não dá. Autora, entre outros, de "Travessia - a vida de Milton Nascimento" (ed. Record) e "Mãe de Dois" (ed. Civilização Brasileira), este último nascido a partir de um blog e transformado em peça de teatro.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

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