terça-feira, 15 de novembro de 2011

Um presente lindo..

Acabo de receber da minha querida Bárbara esse texto Liiindo da Valéria Surreaux ( escritora talentosíssima lá de Uruguaiana) tenho que compartilhar essa verdade que ela me faz lembrar e que me tocou tanto:
 
"Tempo perdido
 
Existe um lugar na alma onde repousam os sentimentos não vividos. Adormecem ali emaranhados todos os beijos não dados, todos os gemidos, todos os sussurros roucos, as línguas aflitas, os olhos derramados, os abraços inteiros, as bocas coladas, ali dormem as promessas, as mãos dadas, os colos, moram todos os arfares, todos os soluços, ali estão as noites mornas e as pernas entrelaçadas e os bocejos, as mãos que deslizam, os pelos, os sorrisos, as risadas, os travesseiros. Ali moram amanheceres, meninices, telefonemas, café na cama, ali moram calçadas vazias, passeios. Mora um sol de maio, um mergulho no mar, as lágrimas, o amparo, mora a segurança, o ombro, o ouvido. Ali naquele canto da alma tão ermo, moram todos os suores, todos os desejos, todas as cores, sabores, salivas. Ali tem som de cachoeira, de mar, tem balanço de rede, tem rio e bares fechando. Tem cansaço e vigor, tem amor. Dormem arrepios, taquicardias, moram brilhos, cintilâncias, mora um ciuminho tão bom de pertencimento, mora a ternura do toque e o cheiro da comida feita, o vinho, o violão, as palavras, os eu te amo, todos os para sempre ali repousam. Todas as safadezas, as preguiças, a intimidade, a saudade boa, mora o ficar a toa, os bem quereres, ali mora o silêncio que acalanta tudo, tudo que não foi vivido, psh, não acordem nada, tudo dorme como criança, tudo é no meio da noite, tudo é mudez. Despertar qualquer sentimento não vivido dói, não volta o que pra lá foi, não volta o que alma trancou. Não se vela o tempo perdido que nesse tempo mais tempo se esvai.  O que não foi vivido, sentido, vira sulcos no rosto, vira manchas nas mãos. É turvo o olho de quem quer de volta o brilho. A vida virou lembrança. Amores, calores, fervores, azares, arrebatamentos, desencontros, tudo cheira a naftalina, a pó. Tudo dá dó, fere, rasga, porque não há. Agora é ermo, silêncio e breu. Ainda tanto nos resta, mas não os sonhos que não tivemos audácia de viver, e agora é tarde, mas a memória não emudece e sobrevive em nós, emaranhado, o alargado e inútil tempo ido. Inteiro, intacto.
O tempo perdido é um retrato." (VS)
 

Um comentário:

  1. Grande presente pra mim que sou tua fã. Obrigada pelo carinho, Nádia. Iluminou minha noite como se fosse meio-dia. Um beijo com admiração imensa.

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