quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Memórias olfativas...

Antes de mais nada, preciso dizer o quanto a memória é um bicho perigoso, mutante,feito um camaleão, se traveste e aparece quando e onde menos se espera, como se nos espreitasse o passo.
Parece mesmo um bicho sorrateiro que gosta de nos pregar sustos.
Outra coisa, a memória é bicho parcial, maquiavélico,pouco confiável, as vezes nossa lembrança é ficção, ás vezes é história contada por outros que ambientamos com fotos preto e branco e agarramos como nossas, as vezes é a versão que nos favorece ou a que nos vitimiza, enfim nada séria.
Talvez de todas as espécies de memória, a mais confiável, seja a que mais me assalta: a tal memória olfativa.
Estou indo pro trabalho pela manhã e pumba, vem um cheiro misto de lavanda,alfazema e leite de rosa e está ela ali, minha avó, suave e sorridente com seus braços gordinhos me protegendo.
Ontem mesmo em plena avenida,tocou umamusica lenta e me tirou pra dançar um amor passado, e era pura memória olfativa despertada por um vivente banhado de Fahrenheit.
Tem aquela sensação de primavera vivida em outro tempo que as frésias sempre me dão.
Tem um cheiro que é Paris, senti nas ruas de lá quando viajava sozinha e estava com os sentidos bem atentos, quando esbarro por aqui, volto voando pra Saint Germain esquina Saint Michel.
Um certo jasmim, que me traz a adolescência de volta.
O cheiro do vento norte, que me leva flutuando pra uma certa esquina de um outro lugar.
O cheirinho de nenê, que me coloca nos braços minha filha pra ser amamentada.
Os cheiros vão assim me recontando, catando as memórias brevemente adormecidas que despertam pelo olfato.
Provavelmente quando eu ficar bem velhinha e começar a confundir minha vida com todos os filmes que terei visto, só os cheiros permanecerão fiéis e inalterados, guardados em frascos em algum cantinho da alma.

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