quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

a caixa que não possuo...

Há uns anos atrás bem no inicio do ano, fiz uma “queima de passado” chamei assim, a grande fogueira que fiz no pátio, embaixo de uma lua cheia. Alimentando o fogo além do álcool que joguei em tudo, estavam diários, agendas, bilhetes e cartas.
Me pareceu simbólico e necessário fazer o passado virar cinzas...Eu não estava exatamente feliz e julguei que era o passado ali guardado e vez ou outra revisitado o que me gerava uma sensação de não liberdade, o passado tinha virado bem mais que uma pedra no meu sapato, era um peso, que na época me parecia não me deixar nadar, subir ou voar.
Digo tudo isso por que não tenho mais o peso, mas também não tenho mais nenhum resquício de várias Nádia que eu queria agora relembrar, de outros tempos e sorrisos, de outras esperanças, de outras tentativas, é como se eu tivesse me sonegado o direito de ser plena, de me lembrar...
Justamente o que mais dói , o que a gente ingenuamente queima pra
esquecer, como se tivesse poder de Phoenix volta, mas o que poderia ser oásis, o que poderia ser o sopro na dor, o que poderia ser a garantia do “pronto,pronto..isso passa”, minhas próprias conclusões em diários, as cartas que me carinharam, as lembranças fúteis, como um papel de sonho de valsa, uma folha amarelada em algum outono, algum bilhete apaixonado, esses outros pedaços do meu mosaico queimaram junto e infelizmente não tem volta.

Por que lembrança também dá colo, sinto falta de colo vez ou outra.

Fiz virar cinza não só as dores com as quais eu não queria mais conviver, por pura inabilidade, fiz virar cinza muita vida, meus registros, muitos sonhos, muita emoção, e agora, aqui, sem nenhuma caixa pra me abrir e me mostrar, me sinto capenga, faltando pedaços.
No momento que juntei tudo aquilo me pareceram muito peso pra continuar guardando e rememorando a cada dificuldade, olhar o passado vez o outra me lembrava fugir pro antes, não viver plenamente o agora.
Não queria alimentar a crença de que minha vida tinha sido melhor antes, queimei não o passado, mas a minha sempre presente vontade de voltar e refazê-lo.
Queria fazer a vida recomeçar, sem marca...E não me queria mais voltada pro antes, mas para o futuro.
E agora? Agora tenho o presente e um emaranhado de memória, confundo datas, e como não tenho registro físicos, como não tenho provas, tenho o que resolver ter e lembrar, o que vez o outra me parece um monte de ficção, de um jeito inconseqüente cometi auto lobotomia.
Quero a minha caixa de volta, quero saber de mim...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Seguidores