quarta-feira, 22 de abril de 2015

sobre poemas...

Sobre um Poema 

Um poema cresce inseguramente 
na confusão da carne, 
sobe ainda sem palavras, só 
ferocidade e gosto, 
talvez como sangue 
ou sombra de sangue pelos 
canais do ser. 
Fora existe o mundo. 
Fora, a esplêndida violência 
ou os bagos de uva 
de onde nascem as raízes minúsculas do sol. 
Fora, os corpos genuínos 
e inalteráveis 
do nosso amor, 
os rios, a grande paz 
exterior das coisas, 
as folhas dormindo o silêncio, 
as sementes à beira do vento, 
– a hora teatral da posse. 
E o poema cresce 
tomando tudo em seu regaço. 
E já nenhum poder destrói o poema. 
Insustentável, único, 
invade as órbitas, a face amorfa 
das paredes, a miséria dos minutos, 
a força sustida das coisas, a redonda e livre harmonia 
do mundo. 
– Em baixo o instrumento 
perplexo ignora 
a espinha do mistério. 
– E o poema faz-se contra 
o tempo e a carne. 

Herberto Helder


E outro...

 
um bom poema 
leva anos
 cinco jogando bola, 
 mais cinco estudando 
sânscrito, 
 seis carregando pedra, 
nove namorando a vizinha, 
sete levando porrada, 
quatro andando sozinho, 
 três mudando de cidade, 
dez trocando de assunto, 
uma eternidade, 
eu e você, caminhando junto

 Paulo Leminski

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Seguidores