segunda-feira, 22 de abril de 2013

quando um poeta se vai...

LALALAMENTOTO -
para Paulo (Paco Cac) Custódio 1952/2013

"Deus pode tudo, ter vários nomes, vários rostos, até ser mais de um, sendo vários.
Deus pode ser paciencioso, observar as bobagens que fazemos, respirar fundo, levar a mão no rosto e suspirar quan
do fazemos estripulias.
Deus pode ser vascaíno, flamenguista, flanelinha, pipoqueiro, contrabandista.
Gerar energia para mover rios e mares, levar vida, de todos os modos, a todos os lugares.
Pode ser surdamente silencioso, ou silenciosamente barulhento.
Pode fazer a vida começar num breve momento e num instante breve levar-nos a voar
e a sonhar com candelabros e cataventos.
Pudesse eu pedir-lhe algo, assim faria, de pronto, sem constrangimento:
- Senhor, não leve para junto de si, tão cedo, os poetas, deixai-os ficar velhinhos, para que sofram pelo atrevimento de criar com as palavras, deixai-os por aqui, soltos e livres como pássaros sem asas.
Mas Deus, por vezes, deve sentir-se solitário, e nesses momentos sempre chama um poeta para lhe fazer companhia, para ter alguém com quem conversar, alguém com suficiente capacidade de imaginar acontecimentos.
Deus ainda tem o estranho hábito de chamar crianças para junto de si, como um velho que já viu tudo e precisa de coisas novas para serem vistas.
Poetas e crianças possuem esse dom – conceder olhos novos ao todo-poderoso,
fazendo desse jeito com que Ele permaneça botando fé na sua criação, no seu invento,
e, consequentemente, em nosso sustento.
Quando morre um poeta, então sabemos, nasce uma estrela nova no firmamento.
E o Bom Senhor recoloca as peças no tabuleiro, enquanto, sorridente, prepara um chá quente, para receber mais um companheiro."


Mário Pirata

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