quarta-feira, 27 de outubro de 2010

uma saudade acendeu aqui...

A Ligia amiga querida do tempo da UFSM e que felizmente permance pertinho, sempre me brinda com textos otimos, e hoje a mandou essa saudade: a lembrança dos ipes amarelos, a vontade de mudar o mundo, as passeatas, a nossa esperança imbatível, a garra e a alegria de viver tudo como possibilidade real, o tempo de experimentar, de ser leve e sem nenhum ranço...Que tempo bom de voltar a relembrar!

Como o título: Amigos voltem no tempo...me traz de volta o gracinha do Canella, que na minha memoria ainda é um menino de olhos brilhantes...

CRÔNICA | MARCELO CANELLAS
Uma esperança no campus
Uns moços e moças me convidaram para falar sobre jornalismo na sexta passada. Não preciso de pretexto para estar em Santa Maria. Mas se o tiver é bom porque essa minha vida andeja me amarra a compromissos distantes. Então estive aí com a desculpa de uma palestra, mas fui mesmo é lamber a placenta de onde saiu esse meu visco de repórter. Voltar ao campus da UFSM é como retornar à casa da infância depois de uma vida e perceber que os cômodos são muito maiores do que a memória de menino supunha. Há sempre o desconforto imprevisto de encontrar uma parede onde não havia. Embora seja a mesma casa, ela agora assume a cara de outros convivas, e o sujeito acaba se sentindo meio intruso.

Voltei ao mesmo auditório, no prédio 17, onde tantas vezes liderei assembleias estudantis como presidente do diretório acadêmico da Comunicação Social. Meti-me em política estudantil do primeiro ao último dia de minha experiência universitária e tenho a mais ferrenha convicção de que esse meu envolvimento com a vida da instituição ajudou a me fazer jornalista. A contestação, o exercício do senso crítico, o repúdio às injustiças e a independência intelectual são pré-condições para o exercício de minha profissão. Havia um ambiente acadêmico onde fervilhavam as contradições da universidade, da cidade, do país. Ainda peguei o fim da ditadura, levei cacetada da Brigada em manifestações públicas e gritei pelas Diretas Já na Rua do Acampamento. Naqueles tempos sombrios foi que virei repórter.

Querer mudar o mundo é o traço mais saudável da juventude. Às vezes me acho meio anacrônico por, já quarentão, persistir no mesmo inconformismo de antanho. Mas não adianta, a índole insubmissa do jornalismo rejeita a cartilha de que eu estaria na idade de ser bombeiro. Nada me irrita mais do que a apatia conformista de um guri. Na minha idade, eu até entenderia. Mas é inaceitável ser bombeiro aos 20 anos. Quando vejo estudantes de jornalismo agindo como cordeiros, olhando o mundo em volta e achando normal, aceitando tudo sem reclamar, sem espernear, sem contestar, antevejo a formação de jornalistas medíocres.

Por isso fiquei tão feliz ao ver a luz do protagonismo nos olhos daquela gurizada que lotava o auditório para me crivar de perguntas, para discordar, para contestar, para se lançar a uma discussão aberta e sem preconceitos. Porque estudante é para isso mesmo: para atazanar o Schirmer, para aporrinhar o Felipe Müller, para defender o ensino público e ser solidário aos pobres. Ver isso na minha universidade me faz acreditar no jornalismo do futuro.

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