quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Primavera em Paris...




Estava eu em Paris, inicio de primavera, primeiríssimo dia, larguei as malas no albergue e como boa turista, fui conhecer a Torre Eiffel, lá chegando me deparei com uma quantidade absurda de motos, com meu parco inglês descobri que aquilo era o início de uma “colere” acho que é assim que se chama em francês, uma passeata, uma manifestação que iria por todas as ruas principais de Paris até Versailles, pedindo por mais segurança aos motociclistas.
Novamente usando meu parco inglês perguntei: “Posso ir junto?” E um francês querido me emprestou seu capacete e me levou na garupa de sua moto potente, 10 mil motociclistas e eu, turista e deslumbrada, na primavera, conhecendo tudo de Paris, já que o meu guia fazia questão de mostrar e reforçar todos os pontos turísticos pelos quais passávamos.

Lembro disso, por que por aqui começa a primavera e por que ontem almoçando em um restaurante que me lembra Paris, ouvi sem querer a conversa de duas senhoras, que beiravam os 60 anos:
_ Descobri uma nova, essa tu vais adorar! Acerta tudo, e cobra só cinqüenta, vale a pena!
A outra pergunta:_ E como tu sabe que ela é boa?
_ Ela me disse que o grande amor da minha vida está muito próximo, é ainda este ano!
E o melhor repetiu o que uma outra cartomante já me disse, quando eu tinha dezenove anos, que ele é um senhor, bem abastado e tem um filho que mora na Europa.


Fiquei um pouco triste, imaginei que desde os dezenove anos aquela moça, hoje senhora, deve esperar o senhor abastado com filho na Europa, quantos ela já deve ter despachado por não terem filhos, ou não serem senhores e claro não serem “o amor da vida”... E aí lembrei que há muitos anos atrás uma cartomante disse que eu faria uma viagem para a Europa e lá conheceria alguém que mudaria minha vida. Elas sempre são assim trágicas e definitivas!
Conheci muitas pessoas na Europa, um mês inteiro parando em albergues me fez conhecer muitas e maravilhosas pessoas, e conhecer pessoas sempre muda um pouco a nossa vida.
Viajar muda muito a nossa vida! Viajar sozinha muito mais!
E conhecer a Europa muda a vida de qualquer um, por que muda a dimensão do mundo, por que lá percebemos o quanto o mundo é antigo, vasto e ao mesmo tempo simples e pequeno, percebemos que a vida está ali, densa e única, numa praça, num momentinho ínfimo, nessa bolinha azul que rola e rebola no espaço.A vida é uma oportunidade imperdível.
A Torre Eiffel é linda e está ali ao nosso alcance, o rio Sena e os deliciosos passeios no Bateaux Mouches, o Louvre, o sorriso da Monalisa, Quartier Latin, Montmartre, a Sacrec Coeur, a alma e as palavras do Victor Hugo, o colorido e mágico Jardim de Luxemburgo,etc...Paris é mesmo uma festa, um brinde recheado de história. Paris é vivo, um amor pra se viver e está, como tudo, há algumas horas, há alguns passos, uma emoção pra se deliciar ao alcance da nossa mão. Uma luz sempre possível.
Em Paris mudei minha vida, constatando que nada melhor do que estar presente , viver e provar. O Veríssimo falava em algumas crônicas sobre os deliciosos sorvetes da esquina da Saint Louis, e só lá provando senti o gosto por mais que intuísse. É só na prática e não na teoria que arrepiamos, nos apaixonamos, nos lambuzamos e vivemos enfim.
Lembrei de uma amiga de faculdade dizia: “o que se leva dessa vida é a vida que se leva”. E a vida que se leva, são os sorvetes, os beijos, os conhecidos momentâneos que viram amigos de infância, as risadas, os passeios de moto e a pé, as cartas, as fotografias, as lembranças vivas, os dias e as noites que não dormimos e escolhemos desfrutar.
Respirei a primavera e me deliciei com uma torta de chocolate e morangos, enquanto na mesa do lado a senhora suspirou pela minha torta, mas pediu café com adoçante e a conta.
Provavelmente ela não subiria na garupa de um desconhecido, mal falando a língua dele, e foi um passeio lindo, que me apresentou Paris inteiro numa tarde!
Não sei se foi a primavera, ou foi a senhora, ou foi a lembrança daquele abril , ou se é a vida me cutucando, mas senti uma vontade enorme de passear por lá, flanar feliz pelas ruas de Paris! O que me coloca esse sorriso saudoso e esperançoso na boca é a certeza: Sempre teremos Paris!

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